Confesso nunca ter sido uma fã escancarada de Dercy Gonçalves. Tampouco, sou dada a homengens póstumas, por sempre ver um pouco de hipocrisia na maneira como elas são feitas, mas tenho de considerar a perda da atriz.Dona de um talento nato para o humorismo, Dercy iniciou a carreira no final dos anos 20 como cantora; no entanto, o talento e a versalidade latentes fizeram com que ela, já nos anos 50, se tornasse uma das estrelas da TV Excelsior.
Nos anos 60, Dercy dá um salto em sua carreira quando abandona a dramartugia e passa a fazer shows, que em sua maioria eram roteirizados e dirigidos pela própria atriz. O sucesso nos palcos faz com que ela atinja status de apresentadora, nas décadas seguintes, são recorrentes as participações em quadros e novelas cujas personagens eram criadas especificamente para ela.
Dercy chegou a apresentar programas aos moldes dos talkshows, com muito sucesso, todavia nem o seu deboche escapou aos talhos da ditadura.
Dercy chegou a apresentar programas aos moldes dos talkshows, com muito sucesso, todavia nem o seu deboche escapou aos talhos da ditadura.
O uso indiscriminado de palavrões, sua marca registrada, fez dela um dos maiores ícones do escracho na televisão brasileira
Dercy foi atriz em uma época em que atrizes eram consideradas prostitutas, falava palavrões em rede nacional sem qualquer receio, tinha um comportamento excêntrico, que contradizia os valores atribuídos a mulheres e idosos, como bestialidade para o primeiro grupo e fragilidade para o segundo. Logo, tinha tudo para ser desrespeitada e ridicularizada, como por vezes o foi, mas sabia fazer humor de si mesma e de suas bizarrices, fazendo com que nos indentificássemos com sua sinceridade e atrevimento.
Mais do que tudo, Dercy Golçalves mostrou que o talento e a arte subvertem todo tipo de paradigma.

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